{"id":48,"date":"2025-12-03T12:37:54","date_gmt":"2025-12-03T15:37:54","guid":{"rendered":"https:\/\/merolaeribas.adv.br\/blog\/?p=48"},"modified":"2025-12-03T12:42:15","modified_gmt":"2025-12-03T15:42:15","slug":"patrocinio-infiel-quando-o-advogado-trai-seu-cliente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/merolaeribas.adv.br\/blog\/2025\/12\/03\/patrocinio-infiel-quando-o-advogado-trai-seu-cliente\/","title":{"rendered":"Patroc\u00ednio infiel: quando o advogado trai seu cliente"},"content":{"rendered":"\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre advogado e cliente funda-se em um dos pilares mais importantes da advocacia: a confian\u00e7a. \u00c9 essa confian\u00e7a que permite ao cliente revelar seus segredos mais \u00edntimos, suas vulnerabilidades e suas estrat\u00e9gias, na certeza de que o profissional atuar\u00e1 em sua defesa com lealdade, dedica\u00e7\u00e3o e zelo. Quando essa confian\u00e7a \u00e9 tra\u00edda, n\u00e3o apenas o cliente individual \u00e9 prejudicado, mas toda a institui\u00e7\u00e3o da advocacia e a pr\u00f3pria administra\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a sofrem abalos profundos.<\/p>\n\n\n\n<p>O patroc\u00ednio infiel representa exatamente essa quebra da confian\u00e7a depositada no advogado. Trata-se de conduta t\u00e3o grave que \u00e9 tipificada como crime no C\u00f3digo Penal brasileiro e configura infra\u00e7\u00e3o \u00e9tica disciplinar das mais severas previstas no Estatuto da Advocacia. Compreender seus contornos, suas diversas manifesta\u00e7\u00f5es e suas consequ\u00eancias \u00e9 essencial para todo profissional que deseja exercer a advocacia com \u00e9tica e responsabilidade.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O crime de patroc\u00ednio infiel e suas modalidades<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>O crime de patroc\u00ednio infiel est\u00e1 previsto no artigo 355 do C\u00f3digo Penal, que tipifica a conduta de trair, na qualidade de advogado ou procurador, o dever profissional, prejudicando interesse cujo patroc\u00ednio lhe foi confiado, com pena de deten\u00e7\u00e3o de seis meses a tr\u00eas anos e multa. O par\u00e1grafo \u00fanico do mesmo artigo prev\u00ea o crime de patroc\u00ednio simult\u00e2neo ou tergiversa\u00e7\u00e3o, que ocorre quando o advogado defende na mesma causa, simult\u00e2nea ou sucessivamente, partes contr\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>A distin\u00e7\u00e3o entre as duas figuras \u00e9 importante. O patroc\u00ednio infiel propriamente dito (caput do art. 355) configura-se quando o advogado, embora representando formalmente apenas uma parte, age de modo a prejudicar seus interesses, favorecendo a parte adversa ou terceiros. J\u00e1 a tergiversa\u00e7\u00e3o pressup\u00f5e a defesa formal de ambas as partes em lit\u00edgio, seja ao mesmo tempo (patroc\u00ednio simult\u00e2neo) ou em momentos sucessivos (patroc\u00ednio sucessivo).<\/p>\n\n\n\n<p>Ambas as condutas s\u00e3o crimes contra a administra\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a, pois embora a v\u00edtima imediata seja o cliente tra\u00eddo, o bem jur\u00eddico protegido \u00e9 mais amplo: tutela-se a regularidade do processo judicial e a confian\u00e7a que deve permear a rela\u00e7\u00e3o entre advogado e cliente como pressuposto para o funcionamento adequado da justi\u00e7a. Para a configura\u00e7\u00e3o do crime, \u00e9 necess\u00e1rio que o advogado tenha sido formalmente constitu\u00eddo, com outorga de poderes para representar o cliente, n\u00e3o bastando mera orienta\u00e7\u00e3o informal ou consulta.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>As infra\u00e7\u00f5es \u00e9ticas correlatas<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Paralelamente \u00e0 tipifica\u00e7\u00e3o penal, o ordenamento \u00e9tico-disciplinar da advocacia prev\u00ea diversas infra\u00e7\u00f5es relacionadas \u00e0 quebra de confian\u00e7a e ao patroc\u00ednio infiel. O artigo 34 do Estatuto da Advocacia estabelece um rol extenso de condutas incompat\u00edveis com o exerc\u00edcio da advocacia, entre as quais se destacam algumas diretamente relacionadas ao tema.<\/p>\n\n\n\n<p>O inciso VIII do art. 34 veda ao advogado estabelecer entendimento com a parte adversa sem autoriza\u00e7\u00e3o do cliente ou ci\u00eancia do advogado contr\u00e1rio. Essa proibi\u00e7\u00e3o busca evitar que o advogado, valendo-se de sua posi\u00e7\u00e3o privilegiada e do acesso a informa\u00e7\u00f5es confidenciais, negocie diretamente com o advers\u00e1rio, criando situa\u00e7\u00f5es de conflito de interesses ou mesmo prejudicando deliberadamente seu cliente. A comunica\u00e7\u00e3o com a parte contr\u00e1ria deve sempre passar pelo advogado adverso ou, no m\u00ednimo, contar com a ci\u00eancia e autoriza\u00e7\u00e3o expressa do cliente.<\/p>\n\n\n\n<p>O inciso IX do mesmo artigo pro\u00edbe prejudicar, por culpa grave, interesse confiado ao seu patroc\u00ednio. Aqui, diferentemente do patroc\u00ednio infiel doloso, pune-se a neglig\u00eancia grave que resulta em preju\u00edzo ao cliente. \u00c9 importante distinguir: o erro profissional de boa-f\u00e9, ainda que resulte em dano, n\u00e3o configura infra\u00e7\u00e3o \u00e9tica quando decorre de avalia\u00e7\u00e3o equivocada dentro dos limites da razoabilidade profissional. J\u00e1 a culpa grave pressup\u00f5e descuido inescus\u00e1vel, atua\u00e7\u00e3o temer\u00e1ria ou des\u00eddia que nenhum profissional diligente cometeria.<\/p>\n\n\n\n<p>O inciso X veda acarretar, conscientemente, por ato pr\u00f3prio, a anula\u00e7\u00e3o ou nulidade do processo em que funcione. Trata-se de modalidade espec\u00edfica de sabotagem processual, em que o advogado, intencionalmente, provoca v\u00edcios que comprometem a validade do processo. Pode ocorrer, por exemplo, quando o advogado propositalmente deixa de arrolar testemunha essencial, omite documentos fundamentais, ou pratica atos que sabe serem causadores de nulidade, tudo com o objetivo oculto de prejudicar seu cliente.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Conflito de interesses: a raiz de muitas infra\u00e7\u00f5es<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Grande parte das situa\u00e7\u00f5es de patroc\u00ednio infiel ou de quebra de confian\u00e7a tem origem em conflitos de interesses n\u00e3o adequadamente gerenciados pelo advogado. O C\u00f3digo de \u00c9tica e Disciplina da OAB dedica aten\u00e7\u00e3o especial a esse tema nos artigos 20 a 22.<\/p>\n\n\n\n<p>O art. 20 estabelece que, sobrevindo conflito de interesses entre constituintes e n\u00e3o conseguindo o advogado harmoniz\u00e1-los, caber-lhe-\u00e1 optar por um dos mandatos, renunciando aos demais, sempre resguardando o sigilo profissional. A regra evidencia que o advogado n\u00e3o pode manter representa\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea de clientes cujos interesses se tornem conflitantes. A tentativa de concilia\u00e7\u00e3o dos interesses \u00e9 permitida e at\u00e9 desej\u00e1vel, mas se frustrada, imp\u00f5e-se a escolha.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais delicada \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o do patroc\u00ednio contra ex-cliente. O art. 21 do C\u00f3digo de \u00c9tica prev\u00ea que o advogado, ao postular em nome de terceiros contra ex-cliente ou ex-empregador, deve resguardar o sigilo profissional. A jurisprud\u00eancia dos tribunais da OAB tem entendido que n\u00e3o caracteriza conflito de interesses, por si s\u00f3, o patroc\u00ednio posterior contra quem j\u00e1 foi representado, desde que haja preserva\u00e7\u00e3o do sigilo e ausentes provas de preju\u00edzo \u00e0 parte. Todavia, \u00e9 expressamente vedado que esse novo patroc\u00ednio tenha rela\u00e7\u00e3o direta com o assunto pelo qual o advogado foi anteriormente constitu\u00eddo.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa distin\u00e7\u00e3o \u00e9 crucial. O advogado pode, em tese, atuar contra ex-cliente em mat\u00e9ria completamente diversa daquela em que anteriormente o representou, desde que n\u00e3o utilize informa\u00e7\u00f5es privilegiadas obtidas na rela\u00e7\u00e3o anterior e que n\u00e3o exista conex\u00e3o f\u00e1tica ou jur\u00eddica entre as causas. Por\u00e9m, se a nova causa guardar qualquer rela\u00e7\u00e3o com o mandato anterior, h\u00e1 impedimento \u00e9tico absoluto, ainda que o cliente consinta.<\/p>\n\n\n\n<p>O art. 22 complementa a disciplina ao estabelecer que ao advogado cumpre abster-se de patrocinar causa contr\u00e1ria \u00e0 validade ou legitimidade de ato jur\u00eddico em cuja forma\u00e7\u00e3o haja colaborado ou intervindo de qualquer maneira. Aqui a veda\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais ampla: mesmo que n\u00e3o tenha havido rela\u00e7\u00e3o de cliente propriamente dita, se o advogado participou da elabora\u00e7\u00e3o de determinado ato jur\u00eddico (um contrato, um estatuto social, um acordo), n\u00e3o pode posteriormente atuar em causa que vise desconstitu\u00ed-lo ou questionar sua validade. A participa\u00e7\u00e3o na forma\u00e7\u00e3o do ato gera impedimento permanente para impugn\u00e1-lo, sob pena de patrocinar causa contr\u00e1ria a ato que ele pr\u00f3prio ajudou a construir.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>A quebra do sigilo profissional como forma de trai\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Uma das manifesta\u00e7\u00f5es mais graves de trai\u00e7\u00e3o \u00e0 confian\u00e7a do cliente \u00e9 a viola\u00e7\u00e3o do sigilo profissional. O sigilo profissional \u00e9 de ordem p\u00fablica e independe de solicita\u00e7\u00e3o de reserva pelo cliente, sendo dever inerente \u00e0 pr\u00f3pria natureza da advocacia. Abrange n\u00e3o apenas fatos revelados expressamente como confidenciais, mas tudo aquilo que o advogado toma conhecimento em raz\u00e3o do exerc\u00edcio profissional.<\/p>\n\n\n\n<p>A quebra do sigilo pode se dar de diversas formas. A mais evidente \u00e9 a revela\u00e7\u00e3o direta de informa\u00e7\u00f5es confidenciais a terceiros sem autoriza\u00e7\u00e3o do cliente. Por\u00e9m, existem formas mais sutis e igualmente reprov\u00e1veis. Uma delas ocorre quando o advogado, ao aceitar novo cliente em causa contra ex-cliente, utiliza informa\u00e7\u00f5es privilegiadas obtidas no mandato anterior para estruturar a estrat\u00e9gia de ataque. Ainda que n\u00e3o revele expressamente os segredos, o simples uso dessas informa\u00e7\u00f5es j\u00e1 configura quebra de sigilo e patroc\u00ednio infiel.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra situa\u00e7\u00e3o recorrente \u00e9 a do advogado que, representando simultaneamente clientes com interesses potencialmente conflitantes, permite que informa\u00e7\u00f5es de um \u201cvazem\u201d para o outro, ainda que inadvertidamente. Por exemplo, o advogado que representa simultaneamente duas empresas concorrentes em \u00e1reas distintas pode, em uma reuni\u00e3o com um dos clientes, deixar escapar informa\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica do outro, comprometendo o sigilo e criando vantagem competitiva indevida.<\/p>\n\n\n\n<p>A era digital trouxe novos desafios para a preserva\u00e7\u00e3o do sigilo. O uso de WhatsApp, e-mails corporativos, armazenamento em nuvem compartilhada e outras ferramentas tecnol\u00f3gicas aumenta exponencialmente os riscos de viola\u00e7\u00e3o inadvertida do sigilo profissional. O advogado que mant\u00e9m conversas sobre casos sigilosos em grupos de WhatsApp, que envia e-mails de trabalho para endere\u00e7os pessoais sem criptografia, ou que armazena documentos confidenciais em servidores sem prote\u00e7\u00e3o adequada, coloca em risco o sigilo e pode responder por neglig\u00eancia grave.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Casos concretos e situa\u00e7\u00f5es de risco<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>A casu\u00edstica dos tribunais de \u00e9tica da OAB revela algumas situa\u00e7\u00f5es recorrentes que merecem aten\u00e7\u00e3o especial dos profissionais. Uma delas \u00e9 a chamada \u201ccasadinha\u201d ou \u201ccasamento de processos\u201d, em que o advogado pratica tergiversa\u00e7\u00e3o por meio do patroc\u00ednio simult\u00e2neo de ambas as partes com a finalidade de simular lit\u00edgio judicial para fraude \u00e0 lei. \u00c9 o caso t\u00edpico do advogado que, a pedido de ambas as partes em separa\u00e7\u00e3o consensual, formaliza o processo como litigioso para obter benef\u00edcios indevidos (como acelera\u00e7\u00e3o de prazos ou outros efeitos jur\u00eddicos reservados \u00e0s separa\u00e7\u00f5es contenciosas), prejudicando o sistema de justi\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o configura crime o advogado que atua em favor de ambas as partes quando h\u00e1 consentimento e inexistem interesses antag\u00f4nicos, como na homologa\u00e7\u00e3o de acordo extrajudicial, pois n\u00e3o h\u00e1 trai\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a quando os objetivos s\u00e3o comuns. A quest\u00e3o central n\u00e3o \u00e9 o mero fato de representar ambas as partes, mas a exist\u00eancia de conflito real de interesses e a trai\u00e7\u00e3o da confian\u00e7a de uma delas.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro caso frequente envolve o advogado que, no curso do mandato, \u00e9 \u201ccooptado\u201d pela parte adversa, passando a atuar deliberadamente contra os interesses de seu cliente. Pode ocorrer mediante vantagem financeira oferecida pelo advers\u00e1rio, por rela\u00e7\u00f5es pessoais que comprometem a independ\u00eancia profissional, ou mesmo por convencimento ideol\u00f3gico que leva o advogado a passar a enxergar a causa do advers\u00e1rio como mais justa. Independentemente da motiva\u00e7\u00e3o, a perman\u00eancia na representa\u00e7\u00e3o do cliente origin\u00e1rio enquanto atua em seu desfavor caracteriza patroc\u00ednio infiel em sua forma mais pura.<\/p>\n\n\n\n<p>Situa\u00e7\u00e3o particularmente delicada ocorre em grandes escrit\u00f3rios de advocacia quando diferentes departamentos ou s\u00f3cios representam clientes com interesses conflitantes. A estrutura societ\u00e1ria n\u00e3o afasta o dever de lealdade e o impedimento por conflito de interesses. Os advogados integrantes da mesma sociedade profissional n\u00e3o podem representar, em ju\u00edzo, clientes com interesses opostos. A solu\u00e7\u00e3o \u00e9tica exige que o escrit\u00f3rio renuncie a um dos mandatos, n\u00e3o sendo suficiente a simples separa\u00e7\u00e3o f\u00edsica ou a \u201cchinese wall\u201d (barreira de informa\u00e7\u00f5es) entre os advogados que atuam em cada causa.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Consequ\u00eancias da trai\u00e7\u00e3o \u00e0 confian\u00e7a<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>As consequ\u00eancias do patroc\u00ednio infiel e de condutas correlatas s\u00e3o severas e podem se dar em tr\u00eas esferas distintas. Na esfera penal, a condena\u00e7\u00e3o pelo crime do art. 355 do C\u00f3digo Penal pode resultar em pena de deten\u00e7\u00e3o de seis meses a tr\u00eas anos, al\u00e9m de multa. Embora seja crime de menor potencial ofensivo, a condena\u00e7\u00e3o gera registro criminal e pode comprometer definitivamente a reputa\u00e7\u00e3o profissional do advogado.<\/p>\n\n\n\n<p>Na esfera \u00e9tico-disciplinar, as infra\u00e7\u00f5es relacionadas ao patroc\u00ednio infiel podem ensejar desde a san\u00e7\u00e3o de advert\u00eancia at\u00e9 a exclus\u00e3o dos quadros da OAB, dependendo da gravidade da conduta e das circunst\u00e2ncias do caso. A exclus\u00e3o, como j\u00e1 analisado em artigos anteriores, representa verdadeira \u201cpena de morte profissional\u201d, embora possa ser revertida mediante reabilita\u00e7\u00e3o ap\u00f3s cumpridos os requisitos legais.<\/p>\n\n\n\n<p>Na esfera c\u00edvel, o advogado que causa preju\u00edzo ao cliente por patroc\u00ednio infiel responde por perdas e danos. A responsabilidade \u00e9 subjetiva, exigindo prova do dano, da conduta culposa ou dolosa, e do nexo causal entre ambos. Por\u00e9m, em casos de patroc\u00ednio infiel doloso, a jurisprud\u00eancia tem admitido invers\u00e3o do \u00f4nus da prova e presun\u00e7\u00e3o de dano, cabendo ao advogado demonstrar que sua conduta n\u00e3o causou preju\u00edzo ao cliente.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m das consequ\u00eancias formais, h\u00e1 o dano reputacional, que em uma profiss\u00e3o baseada na confian\u00e7a pode ser irrepar\u00e1vel. O advogado condenado por patroc\u00ednio infiel ou por quebra de sigilo profissional dificilmente reconquistar\u00e1 a credibilidade necess\u00e1ria para captar novos clientes ou manter os existentes. A advocacia \u00e9, essencialmente, uma profiss\u00e3o de confian\u00e7a, e sua perda \u00e9 o mais grave dos preju\u00edzos profissionais.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Preven\u00e7\u00e3o e boas pr\u00e1ticas<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>A preven\u00e7\u00e3o do patroc\u00ednio infiel e de condutas que traem a confian\u00e7a do cliente passa, antes de tudo, pela consci\u00eancia \u00e9tica do profissional. \u00c9 fundamental que o advogado desenvolva uma esp\u00e9cie de \u201cradar \u00e9tico\u201d que identifique situa\u00e7\u00f5es de potencial conflito de interesses antes que se tornem problemas concretos.<\/p>\n\n\n\n<p>Algumas pr\u00e1ticas preventivas s\u00e3o recomend\u00e1veis. Ao receber novo mandato, o advogado deve sempre verificar se h\u00e1 conflito com clientes atuais ou ex-clientes. Essa verifica\u00e7\u00e3o deve considerar n\u00e3o apenas o nome da parte adversa, mas tamb\u00e9m eventuais conex\u00f5es empresariais, familiares ou f\u00e1ticas com causas anteriores. Em escrit\u00f3rios de advocacia, \u00e9 recomend\u00e1vel manter sistema de \u201cconflito check\u201d que cruze informa\u00e7\u00f5es de todos os clientes e partes adversas em todos os processos do escrit\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando identificado potencial conflito, a comunica\u00e7\u00e3o transparente com o cliente \u00e9 essencial. O advogado deve informar claramente a situa\u00e7\u00e3o, os riscos envolvidos, e, se for o caso, recomendar a busca de outro profissional. A transpar\u00eancia n\u00e3o apenas previne problemas \u00e9ticos, mas fortalece a rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a com o cliente.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso de mandatos simult\u00e2neos que venham a gerar conflito superveniente, a ren\u00fancia deve ser feita de forma clara e documentada, sempre preservando o sigilo profissional. \u00c9 recomend\u00e1vel, quando poss\u00edvel, formalizar por escrito quais informa\u00e7\u00f5es foram compartilhadas durante o mandato anterior e que devem permanecer sob sigilo na atua\u00e7\u00e3o futura.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, a atualiza\u00e7\u00e3o constante em \u00e9tica profissional \u00e9 fundamental. As situa\u00e7\u00f5es de potencial conflito de interesses tornam-se cada vez mais complexas em um mundo de rela\u00e7\u00f5es empresariais entrela\u00e7adas, fus\u00f5es e aquisi\u00e7\u00f5es frequentes, e estruturas societ\u00e1rias sofisticadas. O advogado que n\u00e3o se atualiza sobre os limites \u00e9ticos de sua atua\u00e7\u00e3o corre o risco de, mesmo sem inten\u00e7\u00e3o, incorrer em condutas que configurem trai\u00e7\u00e3o \u00e0 confian\u00e7a de seus clientes.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>O patroc\u00ednio infiel representa a ant\u00edtese dos valores que devem guiar o exerc\u00edcio da advocacia. Enquanto a profiss\u00e3o se funda na confian\u00e7a, na lealdade e no compromisso com os interesses do cliente, o patroc\u00ednio infiel materializa a trai\u00e7\u00e3o desses valores fundamentais. Suas consequ\u00eancias v\u00e3o al\u00e9m do preju\u00edzo individual ao cliente tra\u00eddo, atingindo a credibilidade de toda a classe e comprometendo a pr\u00f3pria administra\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>A preven\u00e7\u00e3o dessas condutas exige mais do que o mero conhecimento das normas \u00e9ticas. Demanda uma postura profissional pautada pela integridade, pela transpar\u00eancia e pelo permanente questionamento sobre a adequa\u00e7\u00e3o \u00e9tica de cada decis\u00e3o tomada no exerc\u00edcio do mandato. O advogado deve estar sempre atento aos riscos de conflito de interesses, deve zelar escrupulosamente pelo sigilo profissional, e deve ter a coragem de recusar mandatos ou renunciar a eles quando identificar situa\u00e7\u00f5es incompat\u00edveis com o dever de lealdade ao cliente.<\/p>\n\n\n\n<p>A confian\u00e7a, uma vez perdida, dificilmente se reconstr\u00f3i. Por isso, o cuidado com a \u00e9tica n\u00e3o deve ser visto como mero requisito formal ou como restri\u00e7\u00e3o indesejada \u00e0 atividade profissional, mas como o pr\u00f3prio fundamento que torna poss\u00edvel o exerc\u00edcio digno e respeit\u00e1vel da advocacia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>*S\u00e9 s\u00f3cio do escrit\u00f3rio&nbsp;<a href=\"https:\/\/instagram.com\/merolaeribas\">Merola &amp; Ribas Advogados<\/a>, especialista em Direito P\u00fablico pelo Instituto Goiano de Direito. Foi Assessor da Presid\u00eancia do Tribunal de \u00c9tica e Disciplina da OAB\/GO.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O patroc\u00ednio infiel viola a confian\u00e7a essencial entre advogado e cliente. Configura crime, infra\u00e7\u00e3o \u00e9tica grave e pode gerar exclus\u00e3o da OAB, responsabilidade civil e dano irrepar\u00e1vel \u00e0 reputa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":51,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[2],"class_list":["post-48","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ted","tag-ted"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/merolaeribas.adv.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/merolaeribas.adv.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/merolaeribas.adv.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/merolaeribas.adv.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/merolaeribas.adv.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=48"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/merolaeribas.adv.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":52,"href":"https:\/\/merolaeribas.adv.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48\/revisions\/52"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/merolaeribas.adv.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/51"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/merolaeribas.adv.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=48"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/merolaeribas.adv.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=48"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/merolaeribas.adv.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=48"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}